2026/02/20
Lições que insistimos em adiar.
A tempestade Kristin, que recentemente atingiu a zona centro do país, com forte impacto em Leiria, Marinha Grande, Pombal e concelhos vizinhos, voltou a expor fragilidades que já conhecemos bem. Árvores caídas, cortes prolongados de eletricidade, estradas condicionadas e prejuízos em habitações e empresas marcaram o quotidiano de muitas famílias. Para alguns, foi apenas mais um episódio de mau tempo, mas para outros, representou perdas significativas que ainda hoje se fazem sentir e que irão prolongar-se no tempo, não só no plano material, mas também no psicológico.
Não é a primeira vez que enfrentamos situações desta dimensão. Em 2018, o furacão Leslie deixou marcas profundas na nossa região e antes disso, os incêndios de Pedrógão mostraram de forma trágica como a falta de preparação pode ter consequências irreversíveis. As lições foram identificadas, os alertas feitos e as promessas repetidas. Ainda assim, continuamos a ser confrontados com fenómenos extremos para os quais o país não está devidamente preparado.
Este não é um problema de um partido ou de um governo em particular, trata-se de uma questão estrutural do Estado e da forma como, ao longo dos anos, a prevenção tem sido encarada. É justo reconhecer melhorias na resposta de emergência, bombeiros, proteção civil, forças de socorro e o exército demonstram mais profissionalismo e inquestionável dedicação em contextos exigentes. No entanto, continuamos demasiado dependentes da resposta após o problema surgir, quando o verdadeiro desafio está na preparação antecipada do território, das infraestruturas e das comunidades.
Ao nível municipal e nacional, persiste uma lógica reativa. Sabemos o que correu mal no passado, conhecemos os riscos e repetimos diagnósticos, mas a mudança estrutural tarda. A preparação para fenómenos extremos continua muitas vezes adiada, apesar da evidência de que estes eventos serão cada vez mais frequentes.
A tempestade Kristin revelou também comportamentos que merecem reflexão. Em momentos de crise, assistimos à corrida aos supermercados, filas tensas e prateleiras vazias. O medo leva, por vezes, a excessos que esquecem quem está isolado, quem perdeu tudo ou quem tem maior dificuldade em garantir o essencial. As crises testam não apenas infraestruturas, mas também o nosso sentido de comunidade.
Uma sociedade preparada não se define apenas pelos meios técnicos de que dispõe. Define-se também pela capacidade de esperar, partilhar e compreender que nem todos vivem a adversidade da mesma forma. A solidariedade faz tanta diferença quanto qualquer investimento material.
Para quem sofreu danos graves, importa deixar uma mensagem clara: a recuperação será longa, mas faz-se melhor quando ninguém é deixado para trás. Espera-se que desta vez não se repita o que aconteceu após os incêndios de 2017, onde, passados anos, grande parte da natureza destruída continua sem ser reposta, com vastas áreas ainda ao abandono. Pensar e preparar o território é uma responsabilidade coletiva e quanto mais cedo a assumirmos, mais preparados estaremos para o futuro.
João Santos
Vice-Presidente da concelhia de Pombal do CDS-PP